Início » Notícias » Entrevista | André Alcântara, responsável pelo documentário Um Real a Hora

Entrevista | André Alcântara, responsável pelo documentário Um Real a Hora

Documentário retrata a existência de locadoras de jogos eletrônicos e lan-houses ainda em funcionamento no Brasil

Na última semana, o jornalista sergipano André Alcântara disponibilizou gratuitamente no YouTube, o documentário Um Real a Hora, que retrata a existência de locadoras de jogos eletrônicos e lan-houses ainda em funcionamento no Brasil. O média-metragem apresenta esses locais como espaços sociais, que, além de incentivar dinâmicas e interações coletivas, oferecem acessibilidade aos videogames em regiões perifericas, onde ter um computador ou um console é algo distante da realidade das pessoas.

Entrevista com André Alcântara

O Clube do Videogame realizou uma entrevista com o jornalista responsável pelo documentário; ele contou, em detalhes, como foi a produção do filme. Confira:

Clube do Videogame: Como você definiria esses ambientes de lan house e locadoras de games?

André Alcântara: Eu os definiria como dois dos personagens mais importantes da nossa história de games brasileira. A influência que tiveram na construção das identidades gamers brasileiras é muito grande. São espaços de socialização e de promoção de acesso a jogos extremamente relevantes, e que não podem ser apagados ou menosprezados. São lugares onde a experiência de jogo é compartilhada, ainda que não se jogue efetivamente com outra pessoa do seu lado com um controle na mão. Eu definiria locadoras e lan houses de games, ainda, como subversivos, ainda que não haja uma autoconsciência disso. Esses espaços vão na contramão da indústria, que, apesar de promover a interação online, individualiza o jogador e tem produtos cada vez mais inacessíveis, especialmente em países periféricos como o Brasil e outros. Enquanto a indústria tem nos imposto inacessibilidade (há muito tempo, pois videogame não começou a ser caro aqui ontem), esses locais nos dão acessibilidade. E não só isso: nos oferecem possibilidade de pensar o videogame para além do que a indústria nos coloca.

Clube do Videogame: Como as lan houses e locadoras de games em funcionamento hoje nos ajudam a entender o cenário de games brasileiro?

André Alcântara: Esses espaços revelam formas próprias que o Brasil tem de jogar, muito baseado na adaptação, apropriação do que vem de fora e criação de novos modos de se relacionar com tecnologias de games. Muito do que hoje a gente é em termos de cultura gamer se deve a esses espaços e seu grande complexo de dinâmicas sociais, e isso vai desde gírias e práticas culturais até tendências de gêneros de jogos.

Clube do Vídeogame: E de onde surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre esse tema?

André Alcântara: A ideia de pesquisar sobre locadoras e lan houses de games surgiu pela minha proximidade com esses espaços. Sou de Canindé de São Francisco, cidade do interior de Sergipe, e lá locadoras e lan houses tiveram força por muito tempo, sendo atores importantes na vida da juventude do município. Quando chegou a época de escolher um tema para meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em jornalismo, vi a oportunidade de explorar, dentro da academia, aquilo que sempre vivi, e que com o passar do tempo reconheci a importância social e a relevância dentro da nossa cultura e história de games.

Clube do Vídeogame: Como foi o processo de pesquisa?

André Alcântara: O processo de pesquisa se deu em dois momentos: a elaboração do projeto e a execução dele. Primeiro, levantei referências bibliográficas ligadas ao tema e fiz o planejamento para execução do documentário. Nessa fase, já estava a procura de fontes que pudessem falar sobre o assunto dentro do recorte geográfico estabelecido: a Região Metropolitana de Aracaju, composta por quatro municípios incluindo a capital. Em um segundo momento, executei aquele projeto em três grandes etapas: produção, filmagens e roteirização e edição.

Clube do Vídeogame: Quais dificuldades você teve ao realizar o documentário?

André Alcântara: As dificuldades foram várias e de diversas ordens. O primeiro desafio foi lidar com o formato documentário. Não curso audiovisual. Nunca tive experiência atrás das câmeras, tampouco realizando um documentário. Então, precisei pesquisar muito sobre o formato e assistir a muitos documentários para entender melhor esse gênero na prática. Outra dificuldade nesse sentido foi lidar com os equipamentos, que tive de comprar por minha conta para não depender do meu departamento na universidade, que fornecem esse tipo de material aos alunos por empréstimos. A primeira gravação contou com a competente profissional da área Vivian Oliveira, mas precisei dar conta de tudo sozinho nas posteriores. Eu sabia o básico sobre configurações da câmera, que era um modelo relativamente antigo, enquadramento, captação de áudio, iluminação.

Além disso, ao realizar as entrevistas, havia uma preocupação tripla: tinha de prestar atenção na condução dela, na captação de vídeo e na captação de áudio, que acabou sendo a parte mais problemática de realização do documentário. Os microfones que adquiri não funcionavam direito, então o áudio foi uma questão delicada.

Para além de dificuldades técnicas de gravação, que foram várias, as fontes também foram um desafio. Fiz uma campanha em redes sociais pedindo indicações desses espaços. Recebi muitas mensagens e registrei todos os espaços ainda abertos (ou que supostamente estavam abertos) para fazer visitas. Grande parte dos proprietários dos locais não quiseram falar ao documentário (em geral, não deram motivos. Apenas disseram que não queriam dar entrevista). Alguns confirmaram, mas depois cancelaram ou não respondiam aos meus contatos. Foi bem desafiador.

A ideia inicial era tratar apenas dos espaços que ainda funcionam, mas daí precisei expandir um pouco o leque de possibilidades para tornar o documentário viável. Então, trouxe ex-proprietários, usuários e até um espaço levemente diferente do que eu queria abordar (a arena gamer HiTech), mas que deu um contraste interessante na narrativa do média-metragem.

A roteirização também foi um problema. Isso porque, no fim das gravações, eu tinha uma quantidade muito grande de arquivos de imagens de apoio e de entrevistas. Dar liga em tudo isso era difícil. Então, montei uma estrutura geral do que queria abordar e comecei a montar o documentário em uma escaleta, método de roteirização que facilita a visualização da progressão narrativa (é um panorama geral do roteiro). Com a escaleta pronta, fiz um roteiro formal para edição. Houve dificuldades na edição também, a qual embora tenha contado com o auxílio de Renata Mourão, técnica de audiovisual do meu departamento, precisei fazer boa parte sozinho em um software que não dominava. O processo de aprendizagem se deu enquanto editava o documentário. Não foi uma tarefa simples, mas, no fim, rolou.

Confira o documentário

Gostou da entrevista? Você pode conferir o documentário abaixo.

Clique aqui para conferir mais notícias no Clube do Videogame.

Compartilhe

Letícia Höfke

Letícia Höfke

Sou jornalista, escritora e completamente apaixonada por tudo que envolve o universo geek - principalmente, o Batman.

Veja também