Entrevista | Rodrigo Banzato, criador do jogo Parallel

Entrevista | Rodrigo Banzato, criador do jogo Parallel

A Brasil Game Show (BGS) 2022, que aconteceu entre os dias 6 e 12 de outubro, contou com um espaço chamado Avenida Indie, um corredor repleto de estandes de desenvolvedoras independentes. Nessa área, havia muitas opções legais de jogos indie brasileiros para testar. Um deles era Parallel, que, lançado no dia 5 de outubro para PC, é um novo RPG com elementos perturbadores, em que o jogador terá de explorar vários mundos paralelos, com ambientes diferentes, cheios de misticismo.

Como base, Parallel se utiliza do Efeito Borboleta – a teoria que analisa como pequenas alterações nas condições iniciais de um evento podem gerar transformações drásticas e significativas neles, com grandes consequências para nós mesmos e para sistemas que nos rodeiam. É por isso que cada escolha feito pelo jogador, mesmo um simples sim ou não dito em uma conversa, pode mudar todo o destino do seu caminho. “Às vezes as escolhas são inconscientes. Pequenas decisões, grandes reviravoltas”, diz a descrição do game em sua página na Steam, onde uma demo está disponível para que você possa testar antes de jogar.

O Clube do Videogame realizou uma entrevista exclusiva Rodrigo Banzato, o criador do jogo Parallel. Confira!

 

Clube do Videogame: Me conta um pouco sobre você. Como você começou a trabalhar com jogos?

 

Rodrigo Banzato: Me formei em design em 2003 e de lá pra cá, foram muitos projetos diferenciados, desde personagens 3D para empresas, até passeios de realidade virtual. Mas paralelo aos trabalhos, sempre fazia pequenos projetos relacionados a jogos e participava de outras produções como voluntario. Só em 2016 é que me senti capaz de fazer um game sozinho e lancei o jogo Clown2Beat na Steam, um jogo gratuito mas onde pude aprender muito sobre desenvolvimento, esse foi o inicio. Mas sempre gostei de estudar tudo o que envolvia a produção de games e fazia muitos trabalhos na área.

 

Clube do Videogame: Me conta um pouco sobre você. Como você começou a trabalhar com jogos?

 

Rodrigo Banzato: Parallel surgiu da necessidade em produzir um jogo mais refinado do inicio ao fim. Em 2019, após um projeto chamado Shadows of Kepler, que não obteve um investimento, me vi na necessidade e na capacidade de encarar uma produção toda. Shadows of Kepler me ensinou muita coisa e foi nele que eu me senti confiante em produzir games. A ideia inicial de Parallel era a de apresentar um universo muito lindo, rico em natureza e com uma civilização evoluída, sem os instintos primitivos da nossa civilização. E para apresentar tudo isso, resolvi escolher um personagem que fosse um ícone, um bobo da corte, todo vermelho, que chamasse muito a atenção e deixasse sempre na duvida quem é ele e quem é o jogador e seu papel no jogo. Mistérios fazem parte do mundo de Parallel, um pequeno mundo aberto cheio de descobertas.
Clube do Videogame: Como foi o processo para desenvolver o game?
Rodrigo Banzato: A primeira etapa é a de escrever em poucas linhas toda a historia do seu jogo e depois, começar a coletar muita referencia, muita mesmo, imagens, vídeos etc. Todas essas referencias são base da criação. Modelos 3D, texturas, iluminação, cor, animação, level design, cenário, personagens, tudo isso vai sendo criado com o tempo e com a necessidade. É importante ter uma ideia bem solida em mente ou no papel para não se perder e acabar criando coisas que não serão usadas no game. Organização e planejamento são fundamentais. Mas trabalhar sozinho tem suas vantagens, costumo dizer que 50% é planejamento e os outros 50% é inspiração, pois você pode dormir e sonhar com ótimas ideias, e no dia seguinte você já esta implementando elas. Você é o diretor, produtor, roteirista etc, tem que ter um foco absoluto e saber muito bem o que quer fazer.
Clube do Videogame: Vi que o jogo foi lançado agora em outubro. Como está sendo a repercussão?
Rodrigo Banzato: Esta sendo excelente. O apoio dos YouTubers tem sido fundamental para todos conhecerem o nome Parallel. Em especial, o BRksEdu que tem um video de gameplay com mais de 200 mil visualizações. Isso é muito bom para os desenvolvedores nacionais, quanto mais visibilidade tivermos, maiores são as chances de conseguir patrocínio, investimento, oportunidade, etc. Nesse momento, só tenho a agradecer. As avaliações na Steam, embora ainda poucas, são sempre muito positivas,. Isso me faz ter mais vontade de continuar criando coisas para o universo Parallel. Tudo também é bem novo pra mim e estou aprendendo a cada dia.
Clube do Videogame: Como foi a experiência de estar na BGS?

Rodrigo Banzato: A BGS foi incrível. Trabalhei forte para trazer um estande lindo, embora pequeno, mas que tivesse muita sinergia com o publico. Pude fazer sorteios do jogo e brindes especiais, além de tirar fotos usando o cosplay de Parallel. Isso valorizou ainda mais o jogo e deu uma satisfação enorme ver tantas crianças e adultos se divertindo. Foi muito bom e divertido e espero que a BGS cresça cada vez mais para se tornar o evento do desenvolvedor brasileiro. Lançar o jogo na feira foi muito bom. A repercussão e o gameplay no estande foi muito algo muito positivo.

 

Clube do Videogame: Quais são as desvantagens e dificuldades de trabalhar com jogos indie no Brasil?
Rodrigo Banzato: A parte do investimento, com certeza, é uma das principais dificuldades. As peças de um computador bom são caras e não existe muitos investidores nacionais dispostos a apostar nos games. Montar uma equipe ainda é mais desafiador. No meu caso, fui fazendo sozinho mesmo, pois não tinha condição de ter uma equipe. Isso dificulta muito, mas não deve ser uma barreira para o desenvolvedor. O foco absoluto de atingir um objetivo é algo que todos os desenvolvedores devem ter, mas se programar financeiramente é crucial, afinal, não foi fácil ficar 2 anos e 10 meses focando apenas no jogo Parallel. Durante anos pude dar aulas de computação gráfica e ter condições de viver essa aventura. Falo aventura, pois de fato é uma aventura. Você não sabe como vai ser o final, mas sei que tudo vale muito a pena quando é feito com paixão e desejo de vitória. É preciso mais coragem por parte dos investidores e talvez mais apoio por parte de gente famosa, que pode ajudar em muito no sucesso de um jogo.
Clube do Videogame: E as vantagens de trabalhar com jogos indie no Brasil?
Rodrigo Banzato: A vantagem é que o brasileiro tem que se virar com tudo. Ele é multidisciplinar e lida com diferentes trabalhos a todo o momento. Enquanto equipes la de fora contam com o apoio de pessoas especialistas e investimentos milionários, nós aqui com muito pouco, podemos fazer muito. Vejo vários projetos com um time pequeno que são capazes de produzir e concluir um jogo, como é o caso do jogo Fobia. O brasileiro tem o carisma e deve se unir em grandes projetos, acreditar que podemos fazer a diferença e contar com o apoio do publico brasileiro. São eles que podem nos sustentar e apoiar o nosso mercado. O brasileiro tem muita paixão e sempre apoia grandes iniciativas.
Clube do Videogame: Quem são suas inspirações na indústria?
Rodrigo Banzato:  Me inspiro em grandes projetos e jogos. Desde os 10 anos de idade, sou viciado em games. Jogos como Fallout 3, Bioshock, Skyrim me inspiram demais. Lembro de Todd Howard que contava como ele e 3 amigos começaram a saga de Elder Scrolls. Isso é fascinante. Tudo tem um começo e nem sempre esse começo é feito de flores. Também admiro muito a equipe da ID software que produziu DOOM Eternal, um jogo leve e incrivelmente detalhado. Fico fascinado como conseguem por tanta qualidade em um jogo. Ao mesmo tempo, sei que tem muitos programadores e engenheiros envolvidos, muito estudo. Jogos em geral me inspiram muito e de diversos gêneros. Já joguei bastante jogos de estratégia, MMO, MOBA, first person, third person, survival, battle royale, plataforma, VR entre outros. Todos os gêneros me fascinam bastante, de como eles conseguem prender o jogador naquele universo.
Clube do Videogame: Que conselhos você dá para alguém que queira trabalhar com jogos?
Rodrigo Banzato: Além da paixão, que é o ponto chave de trabalhar com games, tenha o foco absoluto e esteja disposto a se sacrificar, a deixar de ganhar dinheiro, inclusive disposto a perder dinheiro. Pois só assim você vai mostrar que, independente de qualquer coisa, você vai completar a sua missão. Minha missão com Parallel foi a de trazer um bom jogo a todos. Receber elogio dos jogadores nesse momento é algo que não tem preço. E jamais esqueça de criar uma comunidade. Ela é que vai ser a base do sucesso do seu jogo. Se você não tiver uma comunidade forte, vai ter que estar disposto a gastar alguns milhares de dólares em divulgação. Não é incomum ver times indies de fora gastando 20 mil, 40mil ou até mais em divulgação. Mas lembre-se, o brasileiro sabe da nossa luta, somos unidos e temos que nos ajudar cada vez mais. Todo mundo ganha, quando a pessoa opta por comprar um jogo nacional ela esta ajudando o Brasil. Temos que ter essa mentalidade. E nunca se esqueça, o estudo nunca para.
Clube do Videogame: Você está trabalhando em algum outro projeto?
Rodrigo Banzato: No momento não. Agora, é hora de eu trabalhar no pós lançamento do jogo e refrescar a mente para pensar exatamente no que vou fazer no inicio de janeiro de 2023 e no que quero entregar no final de 2023. Quero poder continuar trabalhando com games, se for com uma equipe melhor ainda, mas isso só o tempo dirá. Gosto muito de ensinar também, mas vou pensar com carinho, pois posso querer levar Parallel para os consoles também. Aí, ja é mais uma outra aventura pois envolve gastos e investimento.
Por fim, Rodrigo deixa um recato para todos: “Espero que você se sinta motivado com minha história e siga seus sonhos e objetivos, pois a vida é uma grande aventura e temos que viver ela com intensidade e entusiasmo!”
Letícia Höfke
Letícia Höfke

Sou jornalista, escritora e completamente apaixonada por tudo que envolve o universo geek. Twitter e Instagram: @leticiahofke