O mundo gamer e seu problema de homofobia

The Walking Dead

No último dia 28 de junho, comemorou-se novamente O Dia do Orgulho LGBT+. Essa data geralmente fica marcada pela celebração das diferenças e por protestos que pregam o fim da homofobia e outros preconceitos. Como outros pontos socialmente importantes, esse também foi tratado por uma série de games. As comemorações envolveram desde eventos in-game até simples publicações em redes sociais.

Borderlands 2

O que deveria ser uma data de comemoração e reflexão, inspirada pela histórica Rebelião de Stonewall, foi mais uma oportunidade para a “comunidade gamer” mostrar um de seus lados mais sórdidos. Muitas vezes disfarçadas de “discussões racionais”, opiniões repletas de homofobia se tornaram um lugar-comum. Isso foi especialmente comum entre aqueles que insistem em dizer que “não querem política em suas experiências”. Isso é, contanto que essa “política” não seja aquela com a qual eles concordam (críticas ao armamentismo? Isso é “mimimi”).

Em geral, o argumento é o mesmo: “não é preciso que elementos LBGT+ sejam inclusos em games, porque isso é poluir a experiência”. Para muita gente, independentemente da intenção dos criadores, ter elementos tão inofensivos quanto uma bandeira do arco-íris já é o suficiente. Na maioria das vezes, isso basta como motivo para que um jogo nunca mais seja tocado ou valha ser comprado — algo que, garanto, muitos criadores que não apoiam homofobia vão ficar até felizes em saber.

Liberdade criativa gamer, pero no mucho

Não raras vezes, pessoas que fazem esse tipo de comentário são as mesmas que em certos contextos partem para a defesa da “liberdade criativa dos autores”. Mas claro, isso só quando um personagem Oriental chega ao Ocidente menos sexualizado, o que é considerado uma “grande censura”. Ironicamente, o respeito à liberdade criativa some quando isso envolve trazer elementos LGBT+ ou personagens não-binários a uma trama.

The Last of Us Part 2

Essa homofobia generalizada fica ainda mais evidente em um tempo no qual o “grande lançamento da estação” é The Last of Us Part 2. Não é preciso vasculhar muito redes sociais e fóruns para encontrar “brincadeiras” — com pitadas de antissemitismo aqui e ali — com termos tão execráveis quanto “The Lacre of Us” e “The Lesbian of Us”, para não citar as coisas mais pesadas. Tudo porque a protagonista, Ellie, se identifica como homossexual.

E antes que alguém venha protestar, sim, críticas a The Last of Us Part 2 são válidas. Mas, a partir do momento em que elas se centram somente na sexualidade da protagonista, é difícil assumir que elas estão sendo feitas como uma intenção “sincera” de melhorar o game. Da mesma forma, já é comum encontrar críticas ao físico não sexualizado de uma personagem baseado na “impossibilidade científica disso”. Como se um universo dominado por um fungo assassino que destruiu a civilização fosse super ancorado na realidade.

Em geral, quem afirma esse tipo de coisa — e nunca se assume como homofóbico —, defende que o que incomoda não é a existência de personagens e temas diferentes. O problema, segundo eles, é que tais elementos estariam sendo “forçados” para o público. Isso me parece ridículo não somente porque minha memória recente pode indicar vários lançamentos grandes em que nenhum elemento queer aparece, mas também porque as estatísticas mostram que não é verdade.

Números depõem contra opiniões baseadas na homofobia

Uma pesquisa feita em 2018 pelo GamesRadar encontrou somente 179 games disponíveis comercialmente que possuíam algum tipo de representativa LGBT+. Desses, somente 83 possuíam personagens do tipo que podiam ser controlados. Dentro dessa divisão, somente 8 tinham protagonistas escritos com o elemento queer como parte integral.

The Walking Dead

Se você acha que isso é “suficiente” ou “representativo”, devo dizer que os números estão contra sua “opinião”. Para efeitos de comparação, somente em 2018 o Steam teve mais de 9 mil títulos adicionados a seu catálogo. Ou seja, se presumirmos que todos os títulos com alguma representatividade fossem lançados no mesmo ano, eles não representariam nem 2% dos games oferecidos na plataforma da Valve.

Não é somente por questões mercadológicas que cada vez mais estúdios, dos pequenos aos grandes, estão adotando temas LGBT+. Também não é por isso que se advoga cada vez mais a favor de diversidade. Não estamos mais em um momento cultural como os anos 90, em que fazer piada com elementos do tipo era aceitável e incentivado. Além disso, muitos desenvolvedores pertencem a essa comunidade e querem trazer suas experiências e representações para os games.

Life Is Strange

Acreditar que “tudo era bom” quando homossexuais e pessoas queer não tinham representatividade estavam “escondidos” é não perceber o próprio privilégio. É não saber como é ter que se esconder ou sofrer em silêncio porque todos diziam que aquilo que você sentia ou as coisas que faziam era errado. Felizmente, cada vez mais pessoas estão dando um basta nisso e deixando claro que eles não estão dispostos a ficar calados ou “voltar para o armário”. Por mais que o seu preconceito diga que eles deveriam fazer isso, deixo aqui meu pedido: pare de tentar forçar suas políticas reacionárias em meus games!