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Os Limites do Colecionismo de Games

Os Limites do Colecionismo de Games

Ainda que seja impossível apontar seu marco inicial, podemos afirmar que o colecionismo não é uma prática recente. Nossos ancestrais pré-históricos já coletavam ossos de animais e objetos providos pela natureza, dispondo-os rudimentarmente de através de alguns critérios básicos.

Passados incontáveis milênios, essa prática se tornou muito mais sofisticada sob um prisma organizacional. Sua complexidade se fundamenta em intrincadas relações de sentido que podem ser esmiuçadas e entendidas sob aspectos essencialmente subjetivos.

Consensualmente, o ato de colecionar se refere à prática de guardar, organizar, selecionar, trocar e expor diversos itens, sistematizando-os de acordo com gostos e preferências bastante particulares.

Essa definição é bastante abrangente, o que demanda uma análise cuidadosa e peculiar sobre as motivações de cada colecionador. Porém, existem fatores comuns de cunho psicológico que podem ser aplicados em todos os casos com maior ou menor intensidade.

O ser humano aspira por segurança, um sentimento bastante escasso durante nossa fase adulta. Esta, um período onde temos que lidar com o peso das responsabilidades e as incertezas da vida. Sendo assim, inconscientemente, buscamos uma “suposta” ancoragem através de objetos e conceitos familiares.

Em geral, esse agrupamento de objetos orbita ao redor de lembranças e sensações derivadas da infância. À essa necessidade, se unem a autonomia sobre a própria gestão financeira e em grande parte das próprias escolhas.

Segurança é um conceito diretamente amparado pelo controle. Na maioridade, somos soterrados pela inconstância, incerteza e impermanência. O colecionador, em seu mundo privado, é senhor de cada mudança ou alteração. Cada variável é catalogada ou prevista. As falsas surpresas ou aparentes improvisos são previamente conhecidos.

A aleatoriedade das condições externas é mitigada por uma autoproclamada onipotência. Há também a eleição de um espaço que abrigue esse repositório de memórias afetivas. Quase um culto hedonístico a um altar customizado.

Não apenas os objetos colecionados ganham uma identidade a partir da ótica daquele que o possui, mas o próprio possuidor se reconhece e adequa sua personalidade à medida que ela cresce em diversidade e importância.

Deslocando esse assunto ao games, a dinâmica não é diferente. Muito pelo contrário. Inclusive, sendo mais intensa que outras modalidades de colecionismo, sobretudo no que diz respeito aos itens mais antigos.

As possibilidades de segmentação são infinitas. Alguns reúnem apenas consoles, outros somente jogos, enquanto um terceiro grupo se concentra apenas em itens de uma determinada empresa ou período temporal. Isso, citandos só os exemplos mais óbvios.

Porém, um fato muito importante mudou tudo na última década. As redes sociais aproximaram aqueles com gosto semelhantes, mas também se tornaram as maiores ferramentas de influência na contemporaneidade. Muitos ganharam reconhecimento por aquilo que acumulam, não pelo que são ou pelo que pensam.

Dessa forma, se iniciou uma corrida por jogos ou videogames raros, que trazem consigo poder e prestígio. Nesses casos, a coleção não possui um valor sentimental ou classificação baseada em suas funcionalidades. Todo o investimento se volta ao reconhecimento e admiração alheios.

Atualmente, um console não precisa ser necessariamente bom, ele deve apenas ter poucas unidades disponíveis no mercado.  Um cartucho não tem a obrigação de ser divertido, contanto que ele esteja nas mãos de poucos privilegiados.

Com essa insaciável demanda por exclusividade, criou-se um mercado extremamente antiético e especulativo. Inescrupulosos vendedores se aproveitam dessa constante necessidade de autoafirmação em uma vitrine virtual, para cobrar valores extorsivos sobre qualquer item que tenha uma considerável procura.

De maneira urgente, precisamos respirar profundamente e ter coragem de mergulhar em uma investigação sobre nossas próprias carências e limitações. Para cada um de nós, é necessário questionar a própria alma se este é um hobby praticado de modo saudável ou patológico.

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Eric Filardi

Eric Filardi

Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 28 anos, criado em Taboão da Serra, jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade.

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