Como a mitologia pode ser aplicada nos games

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Mitologia e cultura pop 

Segundo o famoso mitólogo, Joseph Campbell, os mitos são uma “experiência de sentido”, que dão sabedoria e sentido à vida humana. Essas grandes histórias permitem olhar para dentro de nós mesmos e receber uma mensagem profunda, criptografada em símbolos, mas que ajudam a expandir a consciência. 

Mitologia vem do grego mythos – que significa contar, dizer – e logos – que significa escrita, tratado e razão – e é o estudo das lendas e mitos com que os povos antigos reverenciavam os deuses e heróis. Grécia, Países Nórdicos, Japão… Não importa de qual lugar ela vem, a mitologia sempre fascinou a humanidade com suas histórias irreverentes sobre deuses soberanos e heróis poderosos; é um prato cheio para inspirar a criação de conteúdos para arte, incluindo a cultura pop

Como a mitologia pode ser aplicada nos games

Os filmes e quadrinhos do super-herói Thor, da Marvel, por exemplo, têm toda a sua história baseada na mitologia nórdica. Hércules, aquele filme da Disney que marcou a infância de muita gente, tem uma forte influência da mitologia grega, assim como a Mulher-Maravilha, da DC Comic, é uma personagem inspirada na lenda das amazonas – mulheres guerreiras citadas por Homero em dois cantos da Ilíada. 

Os videogames também não escapam dessa tendência. Não é incomum que os estúdios de desenvolvimento busquem inspiração na mitologia, produzindo games que, com essa temática mitológica, ganham o coração do público. Também, como não conquistar as pessoas com uma jornada bem elaborada, missões complexas e uma trama cheia de emoção, heroísmo, tragédia e morte?

Mitologia grega

É impossível falar de mitologia nos games e não citar a saga de God of War, né? É até um clichê falar dele quando se fala sobre jogos influenciados por mitologia, mas é inevitável, porque God of War abordou isso de forma excelente. 

Como a mitologia pode ser aplicada nos games

David Jaffe, o criador, enxergou nos mitos da Grécia Antiga, mecânicas “prontas” de gameplay. Desde os cabelos da Medusa, aquela mulher com serpentes no lugar dos cabelos, até os raios de Zeus, o rei dos deuses e senhor do Olimpo… Tudo isso seria excelente num jogo de ação. A própria ambientação do jogo se dá na Grécia Antiga, mas uma versão mais fantasiosa, que se torna um grande cenário de aventura. 

O game usa da mitologia grega para criar um imaginário próprio, usando muito da liberdade artística para reimaginar e encaixar a história na narrativa. Apesar da influência, Jaffe optou por manter os jogos da franquia de God Of War o mais distantes possível do enredo tradicional. Por exemplo, existe sim um Kratos na mitologia grega, mas não tem nada a ver com o protagonista de God of War. 

Na mitologia grega, Kratos, que tinha como símbolo a força e o poder, era um titã, filho de Palas e Estige, e seus irmãos eram Bia (força), Nike (vitória) e Zelo (rivalidade e grandeza). Os quatro eram considerados as forças aladas de Zeus e foram os primeiros a ficar ao lado do deus para defender o Monte Olimpo do deus-monstro Typhon. 

Em God of War, Kratos, totalmente criado pelo estúdio Santa Mônica, é um humano espartano numa vingança contra os deuses. Ele era o comandante de um exército de espartanos e se aliou a Ares, Deus da Guerra, quando ia perder uma batalha, jurando fidelidade à divindade em troca de uma virada para lhe dar a vitória no conflito. Ares acaba enganando Kratos e faz com que ele mate a própria família. O guerreiro, então, jura vingança. 

Além de Zeus e Ares, outros deuses aparecem ao longo da série, como  Hefesto – deus do fogo da forja -, Hera – esposa de Zeus e deusa das uniões e dos nascimentos – e Afrodite – deusa do amor e da sedução -, além de Gaia – a Mãe-Terra,  deusa primordial, e uma das divindades que governavam o Universo antes da chegada dos titãs – e do titã Cronos – deus do tempo. 

Como explica a jornalista Flávia Gasi, em seu livro “A Poética Imaginária do Videogame: As passagens e as traduções do imaginário e dos mitos gregos no processo de criação de jogos digitais”, as figuras mitológicas – deuses, titãs, monstros, etc – aparecem no jogo de maneira quase literal ou seja, o jogo faz uso de literalismos em sua narrativa para mostrar apontamentos a certo imaginário. 

Isso não significa dizer que, por conta do uso desse literalismo, o processo criativo e a obra são menos complexos. Pelo contrário, é apenas a forma como o desenvolvedor pretende apresentar a mitologia a seu jogador: no caso de God of War, de maneira mais reconhecível, revisitando a mitologia grega através de citações literais de mitos gregos – como a aplicação de nomes de personagens homônimos aos deuses do Olimpo. 

Como a mitologia pode ser aplicada nos games

Existem jogos que apresentam a mitologia grega sem literalismos. A autora cita, em sua pesquisa, o jogo Bioshock, que propõe uma narrativa que hibridiza figuras do imaginário grego com figuras do imaginário contemporâneo. O game trata de assuntos e imagens que remetem às narrativas míticas gregas clássicas, mas de forma a abranger a contemporaneidade. Confuso, né? Vou explicar melhor. O videogame pode pegar emprestado personagens da mitologia grega – como Atlas – e configurar um novo símbolo, além de adicionar temas mais contemporâneos, como ciência e manipulação genética.

Para quem não conhece a mitologia, uma breve explicação: Atlas é um dos titãs gregos e primeiro rei de Atlântida. Ele é monstruoso, desproporcionado e encarna as forças mais selvagens e de destruição da natureza. Unindo-se a outros titãs, Atlas combateu Zeus pelo controle supremo; contudo, a batalha foi perdida, e o deus enviou todos os titãs para o Tártaro, a parte mais profunda do mundo dos mortos. Atlas, no entanto, como punição, ficou com a função de sustentar o céu nos ombros para toda a eternidade.

Segundo a jornalista, em Bioshock, Atlas é uma metáfora irônica, pseudônimo de Frank Fontaine, antagonista do game, que pretende levar a cidade utópica de Rapture – lugar onde se passa o jogo – para o caos. A escolha do nome combina perfeitamente, pois ele é um vilão que traduz bem a visão caótica de Atlas da mitologia, fazendo uma tradução simbólica, indicial e icônica do mito. 

Segundo Flávia Gasi, “Atlas de Bioshock revisita o Atlas da mitologia de três maneiras: serve como ícone da figura do mito, bem como é uma representação de seu significado simbólico, e ainda carrega rastros da figura titânica de Atlas quando injeta material genético a ponto de se tornar monstruoso”.

Como a mitologia pode ser aplicada nos games

De acordo com o livro de Flávia Gasi, há ainda um terceiro caso, como em Eternal Sonata, em que as figuras da mitologia grega – no caso do game, Morfeu – estão presentes como aura e aparecem através de construção narrativa e de personagens, sem o literalismo de God of War. A imagem de Morfeu pode ser encontrada nesse videogame como arquétipo ou mitema. 

O jogo é sobre o pianista e compositor Frédéric Chopin, que morreu de tuberculose com 39 anos. A história mostra um mundo fictício sonhado por Chopin durante suas últimas horas; é um mergulho para um universo onírico. O imaginário da figura mitológica de Morfeu está presente no jogo, mas sua figura icônica não aparece e nem seu mito é citado. Em Eternal Sonata, Morfeu ganha uma revisitação simbólica e aparece como um tipo de aura imaginária. 

Pois é, mas nesse texto vou falar mais sobre alguns daqueles que têm uma referência mais óbvia a mitologia grega, porque se a gente for ficando falando sobre todos os jogos que tem alguma característica dos mitos gregos, não vamos acabar nunca: as história da Grécia Antiga influenciaram o mundo ocidental de uma forma que não dá nem pra imaginar e muitas obras de arte – como os games – contém alguma referência, por menor que seja. 

A série Assassin´s Creed não ficou de fora da influência da mitologia grega. O jogo Assassin’s Creed: Odyssey conta a história da Guerra do Peloponeso, que foi travada entre as cidades-estados da Grécia Antiga, e o jogador controla uma criança exilada chamada Alexios ou Kassandra – dependendo do gênero escolhido no começo do jogo -, que se torna um mercenário. 

Com o game, os jogadores são transportados para uma aventura na Grécia Antiga, que faz referência aos deuses, batalhas e heróis, além de ter confrontos contra criaturas mitológicas icônicas como a Medusa, o Minotauro, figura mitológica que tinha o corpo de homem e cabeça de touro, e Ciclopes, gigantes com um único olho. 

Também temos o jogo Hades para Nintendo Switch e PC, um RPG de ação desenvolvido pela Supergiant Games. Na mitologia, Hades é o deus do submundo. No game, ele tem um filho Zagreus, que pretende sair do submundo e subir o monte Olimpo para reclamar seu lugar junto aos deuses. Em sua jornada, ele é ajudado por figuras como Sísifo, um rei astuto, Eurídice, uma ninfa, e até mesmo por Zeus. 

Vocês também devem se lembrar do anjo Pit, que, em Kid Icarus para Nintendinho, embarca em diversas aventuras para ajudar a deusa da luz Palutena, inspirada na deusa da sabedoria, Atena, em sua luta contra a deusa das trevas, Medusa. Em Kid Icarus: Uprising para Nintendo 3DS, a deusa das trevas ressurge para tentar destruir a humanidade e Pit precisa impedi-la. 

Bom, já deu para perceber que são vários, né? E para não me estender muito, vou falar só de mais um: o clássico Cavaleiros do Zodíaco: Alma dos Soldados, lançado para PlayStation 3, PlayStation 4 e PC. O anime de Cavaleiros do Zodíaco foi um sucesso absoluto entre as crianças brasileiras no início da década de 90 e conta a história de guerreiros que lutam para proteger a deusa Atena, contendo várias referências à mitologia. O jogo, claro, também faz isso. O game reúne 48 personagens do anime, tirados das sagas do Santuário, Poseidon, Hades e Asgard.

Mitologia Nórdica 

Bom, e por falar em Asgard, o reino dos deuses nórdicos, a mitologia nórdica também é bastante inspiradora para os games, inclusive para God of War, que passou a abordar os mitos dos países escandinavos após a vingança de Kratos contra o Olimpo ter sido consolidada. Depois de eliminar os deuses gregos, estava na hora do protagonista ir atrás de Odin – o chefe supremo de Asgard e deus da sabedoria, da magia, da poesia e da guerra -, de Thor, o deus dos trovões e das batalhas – e outras figuras conhecidas. 

Em God of War, o reboot, tudo foi reimaginado e agora, Kratos está em uma nova vida. Após a conclusão de God of War 3, o personagem viajou da Grécia para a Noruega. Segundo o diretor do game, Cory Barlog, ele não destruiu o que se acreditava ser o mundo inteiro, mas apenas a parte governada pelos gregos e agora, era vez de enfrentar os nórdicos. 

Antes do jogo se estabelecer na mitologia nórdica, os produtores consideraram a egípcia também, mas para que o roteiro se encaixasse melhor com o protagonismo de Kratos, decidiram por ambientar God of War na Escandinávia. 

No game Jotun, o jogador controla Thora, uma guerreira que teve uma morte trágica que a impede de ingressar em Valhalla – para onde vão os heróis depois que morrem. Buscando entrar no salão, a protagonista parte em uma missão dada por Odin para derrotar uma série de titãs. O jogo faz referência a muitos dos nomes familiares e rostos da mitologia nórdica e até mesmo a alguns mitos, fazendo um verdadeiro passeio pela mitologia nórdica. 

Assassin’s Creed também explorou a mitologia nórdica com Assassin's Creed: Valhalla, que coloca o jogador no controle de Eivor, um (ou uma) viking que quer vingar o assassinato de sua família. Ele ou ela tem ainda a oportunidade de conhecer personagens famosos da mitologia e visitar vários lugares citados nas histórias. 

Mitologia Egípcia 

Assassin's Creed também abordou o Egito Antigo. Em Assassin's Creed: Origins e suas expansões e desafios, os jogadores puderam explorar grandes pirâmides e tumbas escondidas por todo Egito, além de enfrentar deuses como Anúbis. 

Na mitologia, Anúbis assume o papel de deus dos mortos e é uma divindade com diversas atribuições como, por exemplo, guiar as almas até o submundo. 

Em Tomb Raider: The Last Revelation, a famosa Lara Croft vai ao Egito, onde acaba despertado Seth – o deus das trevas e da morte. Ela precisa correr contra o tempo para deter sua ira e precisará acordar Hórus, o filho da luz, para que o mundo seja salvo. 

Na mitologia egípcia, depois de Seth matar Osíris, há uma batalha entre ele e Hórus pelo trono do falecido pai. O olho de Hórus, um dos artefatos mais famosos do mundo, surgiu porque na luta, Seth arrancou um dos olhos de Hórus. Esse objeto aparece no jogo também. 

Mitologia Japonesa

O maior exemplo que temos de um jogo que explora a mitologia japonesa é Okami. Hideki Kamiya, seu criador, foi buscar inspiração nos mitos japoneses, começando pela protagonista, uma loba branca, que representa a deusa do sol Amaterasu. O antagonista é ninguém mais, ninguém menos que Yamata-no-Orochi, uma serpente de oito cabeças e uma das figuras mitológicas mais famosas do país. Outros personagens da mitologia também aparecem no jogo como, por exemplo, Susanoo, deus dos oceanos e das tempestades. Os conceitos são extraídos do xintoísmo, uma religião nativa japonesa, pouco conhecida no Ocidente. 

Enfim, esses são só alguns exemplos de jogos que foram influenciados pela mitologia. Existem vários e vários, porque, afinal, essas histórias são realmente fascinantes e inspiradoras… 

Leticia
Leticia

Sou escritora, jornalista e completamente apaixonada por tudo que envolve cultura pop. Instagram e twitter: @leticiahofke